“Rubinho é o Vale”

E foi lá nas lonjuras dessa terra que pude compreender com maior exatidão que ele, além de cumprir com seu papel de menestrel sonhador, cumpre com um outro: o de um historiador informal comprometido em retratar a história do cotidiano das pessoas simples

Foi no início dos anos oitenta do século passado, quando os ventos democráticos começavam a soprar pelo Brasil o prenúncio de novos tempos, que surgiu uma turma a escrever uma nova história de um lugar considerado o patinho feio de Minas, o Vale do Jequitinhonha.  Essa turma composta de poetas, compositores, músicos, cantores e sonhadores apaixonados tornou-se o elo entre o Vale esquecido e os grandes centros urbanos. Tendo a arte como porta-voz começou a mostrar para Minas e para o Brasil como o povo do Vale vivia, trabalhava, rezava, sofria, divertia, cantava, dançava e amava. Desse grupo de artistas despontou um sujeito forjado na roça de seu pai lá em Rubim, no baixo Jequitinhonha, cidade que lhe inspirou o cognome artístico de Rubinho do Vale.

Daquela época até os dias atuais, conhecer o trabalho realizado por Rubinho do Vale é o mesmo que conhecer o Jequitinhonha, a simplicidade do lugar e do povo que nele habita, pois ambos se confundem à medida que nos aprofundamos em seus mistérios. Não se sabe onde começa um e termina o outro. O Vale tem nesse trovador um autêntico embaixador a espalhar cantorias e a denunciar o descaso com essa terra, defendendo-a muito mais como um cavaleiro da paz do que propriamente como um guerrilheiro da amargura. Esse gesto de audácia, insistir em cantar as coisas belas que estão nas entranhas do patinho feio de Minas, só pode partir de um cabra da sua têmpera, um dos poucos tropeiros de cantigas a manter-se fiel às suas raízes. Além do folclore regional, ele viaja por vertentes musicais várias como o romantismo, os temas sociais, o amor telúrico, a música infantil e o mundo lúdico com o objetivo de valorizar os sentimentos e a cultura do povo como forma de preservar a vida e a dignidade humana.

Testemunhei este fato em julho de 2006, quando estive em Araçuaí a fim de estrear em meu primeiro e sonhado FESTIVALE. Lá, tive o privilégio de acompanhar Rubinho do Vale numa das etapas de gravação da coletânea lançada em abril deste ano intitulada “A música do Jequitinhonha – Sons do Brasil” e composta por seis CDs: Cantigas do Vale – Geovane Figueiredo; Frei Chico, Lira Marques, Dona Generosa e Corais de Araçuaí; Rubinho do Vale: vida, verso e viola; Pinaco, um trovador de Rubim; Queremos Navegar – Coral Nossa Senhora do Rosário e Forró, de Rubinho do Vale.

Naquela ocasião, pude compartilhar da história de pessoas simples como dona Generosa, uma mulher que, não obstante as dificuldades impostas pela vida, principalmente na vida do povo do Vale, traz sempre no sorriso uma canção, seja uma cantiga de roda ou benditos e incelências de tempos memoráveis. Tive ainda o prazer de conhecer a fina estampa da gente mestiça que canta seus louvores na Folia de Reis do Arraial dos Crioulos, comunidade que tem como anjo da guarda nada menos que Lira Marques a protegê-los com seus olhos mansos. Sem contar o prazer de ver e ouvir o cantar bailado do Coral Araras Grandes, herdeiros legítimos do pioneirismo de Frei Chico, Lira, dona Generosa e outros antigos fundadores do Coral Trovadores do Vale. Infelizmente não pude acompanhar as outras etapas da gravação para poder conhecer os trovadores Pinaco, Zé Cabano, Tuca, Guila Gavião e me enredar por suas histórias, além de poder ouvir a possante voz do poeta-vaqueiro Geovane Figueiredo e seus parceiros. Só os conheci posteriormente, no lançamento da coletânea em abril deste ano, no Palácio das Artes.

E foi lá nas lonjuras dessa terra que pude compreender com maior exatidão que Rubinho do Vale, além de cumprir com seu papel de menestrel sonhador, cumpre com um outro: o de um historiador informal comprometido em retratar a história do cotidiano das pessoas simples. Rubinho documenta o canto do Vale tendo o próprio povo como protagonista do seu cantar inserido em seu próprio habitat natural, o que confere um novo sentido na forma de pensar e registrar o fazer cultural. Não o faz apenas como um mero objeto de pesquisa que produz belos materiais acadêmicos como tantos já produzidos, mas o faz para dar legitimidade à voz desses atores sociais que há muito soltam seu grito clamando por justiça. Voz transmutada em novos significados e que se apresenta carregada de novos valores. Vozes coletivas, que traduzem uma forma de expressão da realidade latente e viva que emana diretamente das entranhas do Vale do Jequi e constrói assim uma maneira própria de explicar e estar no mundo.

Diante disso tudo, poder-se-ia reafirmar uma vez mais que Rubinho é um porta-voz da sua cultura e da realidade do Vale do Jequitinhonha, traduzindo suas raízes em música e poesia. Porém, Rubinho não é apenas um divulgador e porta-voz da cultura do Vale. Ele é, sem sombra de dúvida, um elemento integrante dessa cultura viva e pulsante. Rubinho é o Vale.

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