Diários de Viola: o Guevara do Jequitinhonha.
Em meu horário de almoço, perambulando pelos sebos do Edifício Maleta, deparei-me com um CD de Rubinho do Vale. Esse encontro inusitado reavivou a antiga admiração pelo cantador de Rubim, e num ato tresloucado para um desvalorizado servidor público, investi parte do meu parco soldo na compra de três, isso mesmo, três CDS do cujo!
À noite, em casa, com a calma das procissões do Serro, passei algumas horas fantásticas ao som das folias de reis, das congadas e marujadas, das cantigas de domínio público e dos cantos de amor e dor conduzidos por Rubinho com a simplicidade digna do povo simples do Vale.
Música e cantador formaram um quadro vivo em minhas lembranças. Foi inevitável o regresso a infância. Lembrei-me das viagens ao lado de meu pai, que a mando do governo militar percorria o Vale do Jequitinhonha à procura de estatísticas e mapas, em uma geografia incompreensível para o menino que o acompanhava. Nesse tempo, meus olhos infantis ainda se iluminavam ante a dança e o canto melódico e agudo de um mundaréu de homens cobertos de fitas coloridas, ou frente à dança agressiva dos bois de janeiro.
A música de Rubinho percorria no meu lembrar as pontes do Itamarandiba e de Mendanha, a travessia de balsa em Itinga, as lendas sobre o bicho da Carneira de Pedra Azul, o casarão de Minas Novas com a sua absurda quantidade de janelas, os planaltos de eucalipto de Carbonita à Turmalina, a distância sem fim de Salto da Divisa, e as praias em Jequitinhonha. Rubinho libertava minhas lembranças, e ao som desta trilha sonora discreta e viva, seguia minha viagem ao passado Jequitinhonha.
Voltando o raciocínio ao presente, passados mais de vinte anos do tempo de minhas lembranças, vê-se que o Vale não mudou muito. E acho que eu também não. Meu pai se foi há muito tempo, mas continuo sua sina, margeando o rio mater incessantemente a mando do governo – agora democrático –, dessa vez a procurar os ralos, e ratos, que consomem o dinheiro que, bem aplicado, diminuiria em muito o sofrimento do sertanejo do Jequi.
A pobreza e a cultura do povo continuam sendo marcas indeléveis do lugar, assim como permanece ainda um brilho opaco em meus olhos ao ouvir o Trovadores de Araçuaí, os tamborzeiros de Turmalina ou as lavadeiras de Almenara; ao assistir respeitosamente a passagem do império do Divino e do reinado do Rosário em Diamantina; ao dançar com o boi de janeiro de Itaobim, com a marujada de Rio Preto ou com os congadeiros de Chapada do Norte…
Algum tempo atrás ouvi um companheiro de buteco, lá pelas bandas de Grão Mogol, entre uma e outra da “que-matou-o-guarda” lá de Salinas, dizer que Minas era um retrato do Brasil, mas o Jequitinhonha era maior que as Gerais: o Vale carrega dentro de si toda a América Latina, na cultura e na história de sofrimento do povo.
Nessa ótica um tanto bairrista, ainda sob os efeitos inebriantes de uma folia de reis e dos clamores de minha infância, sonhei o paladino Rubinho, travestido em um Guevara caboclo, percorrendo as sertanias jequitinhonhas para alforriar as lembranças de festa e de dor com o seu cantar, do mesmo modo que o heróico libertador mudou o destino de todo um continente.
Tive certeza, então, que um dia, um cineasta visionário – talvez até migrante de Rio Manso, Berilo ou Jacinto – levará a história de Rubinho à Cannes, talvez substituindo a motocicleta pela viola enfeitadinha de fitas num “Diários de Viola”…
Sonha, Rubinho do (meu) Vale!
E assunta, Brasil!
Marcio Couto