Rubinho do Vale: do Jequitinhonha e do misterioso ofício.
De repente, uma canção escorre pelos bairros de Belo Horizonte. Uma canção com o estranho poder de mobilizar crianças e adultos ao redor de um lirismo enluarado e de uma comunicabilidade solar – palavra e melodia se entendendo às mil poesias.
Meu coração voou pelo céu,
subiu de isopor e desceu de papel.
Trouxe uma lembrança na aba do chapéu:
uma rosa e um cravo
e um favo de mel.
Meu coração é um balão colorido
nas mãos de um menino que não quer crescer.
Brincando de bola, chutando esse mundo,
sonhando com outro melhor pra viver.
“Favo de mel”
Quem arquitetou essa estranheza? Em pouco tempo, quase nada, a cidade decifra a charada…
Rubinho do Vale exerce o misterioso ofício de criar uma canção para a criança. Ofício pretensioso…
Como criar uma canção para alguém que é só música – inteirinha, dos tornozelos às sobrancelhas? Como criar uma canção para alguém que fala cantando, caminha dançando e brinca e imagina e pensa vibrando, percutindo, soando?
A resposta não é fácil, mas é simples: antes de criar a canção para a criança, o compositor re-inventou a própria infância, humanizando a própria humanidade.
Meu cavalinho é ligeiro igual ao vento,
meu cavalinho já me deu muita alegria.
Meu cavalinho é igual ao pensamento:
está sempre em movimento e se chama Ventania.
“Meu cavalinho”
Manoel Mendes Jardim nasceu no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, no município de Jaguarão do Jacinto – mas reinou a meninice na cidade de Rubim. No Jequitinhonha, brincou com todas as canções e todas as danças – passos e ritmos milenares e planetários. De tanto brincar, cresceu. De tanto crescer, agasalhou o Vale no próprio nome. Por isso, além de criador, Rubinho é um espalhador de canções de sua terra – interpretadas, todas elas, com a beleza que encanta e a simplicidade que atrai.
Quem é aquela que vem lá
tão longe, tão longe?
É a flor da laranjeira
do jirau dão dão.
Eu ando por aqui,
aqui, aqui,
a procura de uma agulha
que aqui perdi.
“Flor da laranjeira”
Rubinho do Vale tem ainda o ofício custoso de criar uma canção para o adulto. “Trem da história”, por exemplo, foi criada para o mundo dos homens e das mulheres, estes seres enormes, agigantados, espremidos entre tantas responsabilidades e inumeráveis preocupações.
Entretanto, como os imprevistos costumam ser imprevisíveis… As crianças, sem qualquer cerimônia, se apropriaram dessa canção. Dizem que uma menina escutou o “Trem da história” e saiu cantarolando, e um menino escutou o cantarolado e saiu assoviando, e a canção escorreu pra dentro da escola, e as professoras cantaram com os alunos, e teve teatro e teve jogral e teve coral – e, de repente, uma canção escorreu pelas cidades de Minas.
Lá vai o Trem da História tocado a todo vapor,
cumprindo com seu papel de um menestrel sonhador.
Apita e solta fumaça pelas montanhas gerais,
vivendo só de pirraça no meio dos capitais,
unindo trilhos urbanos com outros trilhos rurais.
Vem lá do Jequitinhonha, quem sabe, do Rio Doce.
E toda noite ele sonha se trem de carga ele fosse…
Levava, em cada vagão, viola, surdo e pandeiro, parava em cada estação, chamava o povo inteiro:
- Pode subir, coração, que esse trem é brasileiro.
“Trem da História”
Este menino do Jequitinhonha foi mineirando a sua arte ao longo da década de 1970. O seu primeiro LP, “Tropeiro de Cantigas”, ganha a estrada das Gerais em 1982. As letras das canções aqui citadas fazem parte do LP “Ser criança” – que rodopiou pelas montanhas em 1989.
Exatamente neste período, uma agitação poética começou a atrair os inventores brasileiros: o movimento de quem se dedica a criar uma canção para a criança.
Desde então, esta ventania criadora vem espalhando muitos nomes: Toquinho e Vinícius de Moraes; Chico Buarque; Renato Rocha, Ronaldo Tapajós e Geraldo Amaral; Antonio Madureira, Ronaldo Correia de Brito e Francisco Assis de Sousa Lima; Bia Bedran; João Bá; Rubinho do Vale; Sandra Peres e Paulo Tatit; Hélio Ziskind…
A história deste movimento – que se desdobra e se aprofunda neste novo milênio – ainda está para ser contada tintim por tintim. Para cantar esta história, entretanto, basta ouvir as canções destes criadores.
Por estas e outras, conhecer a obra de Rubinho do Vale é uma oportunidade para retomar o fio da Infância – o fio capaz de mobilizar adultos e crianças ao redor de uma mesma poesia. Depois é sair por aí, cantarolando, assoviando, espalhando aos quatro ventos todas as nossas descobertas.
Francisco Marques (Chico dos Bonecos)